Considerando a pandemia de Covid-19, foi prorrogado, no Chile, o Ano Jubilar do Centenário de Santa Teresa de Los Andes até 12 de abril de 2021.

Em nossa Província, tivemos uma homenagem à santa chilena com o livro do presidente provincial, Carlos Vargas (OCDS), publicado com prefácio do Frei Patrício Sciadini (OCD):

O Padre Geral, Frei Saverio Cannistrà, OCD, escreveu uma carta sobre o centenário de Santa Teresa de Los Andes, cuja tradução, realizada pelo Volnei (OCDS), segue publicada, abaixo:

Carta do Padre Geral no primeiro centenário da morte de Santa Teresa de los Andes (12 de abril de 2020)


No dia 12 de abril de 2020 se celebra o primeiro centenário da morte de Teresa de los Andes, uma jovem carmelita chilena, que ingressou no Carmelo da cidade de Los Andes em 7 de maio de 1919 e morreu em 12 de abril de 1920, aos vinte anos de idade e 11 meses de vida religiosa.
Num breve espaço de tempo, percorreu um admirável caminho de santidade e nos legou alguns preciosos escritos, onde nos narra sua experiência e seu itinerário espiritual.
Com este motivo, quero oferecer a toda a Ordem – monjas, frades e carmelitas seculares – alguns pontos de reflexão, como convite a imitar a vida desta santa, chamada a “pequena Teresa” do Chile.
Desenvolvo minha reflexão em quatro pontos, seguindo a ordem cronológica de seu itinerário espiritual.


Testemunho de vida. Alguns dados biográficos
Embora seja conhecida como Teresa de los Andes, seu nome religioso é Teresa de Jesus, como o de nossa Santa Madre, a quem professa grande devoção. Embora seu nome pareça demasiado grande para ela, quer chamar-se Teresa de Jesus “para que Jesus possa dizer a ela que Ele é Jesus de Teresa”.
Nasce em 13 de julho de 1900 em Santiago de Chile. Seus pais são Miguel Fernández Jaraquemada e Lucía Solar Armstrong, de ascendência espanhola. No batismo recebe o nome de Juana Enriqueta Josefina de los Sagrados Corazones Fernández Solar. Fica conhecida com o nome de Juanita; é a quarta de seis irmãos, que a querem com loucura; é a irmã mais querida por todos.
Juntamente com Rebeca, sua irmã menor que a seguirá depois de sua morte no mesmo Carmelo de Los Andes, recebe uma esmerada formação cultural no colégio do Sagrado Corazón, um dos melhores colégios de Santiago de Chile, onde cursa brilhantemente seus estudos até os 18 anos. Mas, sobretudo, recebe uma requintada formação cristã no seio de uma família abastada e muito católica, uma vez que Deus “não quis que nascesse pobre”, embora se fará pobre por Ele: “Só quero a Jesus”.
Nas suas férias de verão passa longos períodos na quinta ou chácara familiar de Chacabuco, próxima de Los Andes. Dedica longos tempos à oração diante do Santíssimo, à catequese das crianças das famílias que trabalham na propriedade, participa nas missões que se organizam para estas famílias, atende aos funcionários da fazenda e socorre aos pobres que batem à sua porta.
Pratica também desporte e com suas amigas faz grandes passeios a cavalo pela Cordilheira andina; é uma “verdadeira amazona”. Mas em seu horizonte está sempre presente o ideal do Carmelo, que um dia pensa abraçar.
Terminados os estudos, revela à sua irmã Rebeca um de seus segredos melhor guardados: seus desejos de ser religiosa. Teve que lutar para isto e vencer muitas dificuldades; entre elas, a oposição sobretudo de seu pai, que idolatrava sua filha mais querida, e a de seus irmãos que não viam sentido em sua vocação.
Mas ela não recua em seus esforços. Em 5 de setembro de 1917 escreve pela primeira vez ao Carmelo de Los Andes, expressando seu desejo de ser carmelita. Em 11 de janeiro de 1919, acompanhada por sua mãe Lucía que não deixava de apoiá-la, visita a Priora do Mosteiro, Madre Angélica Teresa, e inicia a preparação para o seu ingresso, não obstante a ruptura familiar que isto implicava. Ingressa em 7 de maio de 1919.
Em seu caminho até o Carmelo se sente guiada por seus diretores espirituais; mas, sobretudo, pelos Mestres do Carmelo, que foram para ela um farol luminoso.


Seu Mestre divino e os Mestres do Carmelo
Deve-se dizer que seu Mestre por excelência é Jesus mesmo, que a instrui interiormente, como afirma repetidamente em seu Diário:
“Em 1906, Jesus principiou a tomar meu coração para Si […] Jesus, desde esse primeiro abraço (primeira comunhão, 1910), não me soltou e me tomou para Si. Todos os dias comungava e falava com Jesus por longo tempo. Mas minha devoção especial era a Virgem. Contava-lhe tudo. Sentia sua voz dentro de mim mesma”. Jesus é seu Evangelho e Maria o espelho no qual se refletia.
Também se sentiu iluminada interiormente pelos Mestres do Carmelo. Nas suas fontes bebe Teresa de los Andes o melhor de sua espiritualidade, que lança novas luzes em seu caminho até o Carmelo. Eles constituem sem dúvida um ponto importante de referência para entender sua vocação, sua mensagem e sua missão na Igreja. Ela mesma nos remete a estas fontes: Teresa de Jesus, João da Cruz, Teresa de Lisieux e Elisabete da Trindade.
Juanita lê desde muito jovem a Vida e o Caminho de perfeição de santa Teresa de Jesus, que deixam nela uma profunda marca. São várias as ressonâncias que encontramos em seus escritos, particularmente sobre a oração teresiana e as quatro formas de regar o horto (cfr. Livro da Vida, 11).
Mais tarde, alguns meses antes de seu ingresso no Carmelo, lê a Suma Espiritual de são João da Cruz, editada em Burgos em 1900. Sua leitura aviva nela a chama viva de amor já acesa em seu coração. À luz desta leitura, entende muitas das experiências que ela havia tido anteriormente.
Entre ambas as leituras está a leitura de Teresa de Lisieux e de Elisabete da Trindade; duas figuras mais próximas a ela, quase coetâneas, cuja influência mudou a constelação da espiritualidade contemporânea. Teresa de los Andes reconhece que sua vida é muito semelhante à destas duas santas carmelitas francesas. Com efeito, em seus escritos se encontram muitas expressões e ressonâncias das mesmas.

O legado de sua experiência: Diário e Cartas
Teresa de los Andes não é uma escritora propriamente dita, nem escreve para que seus escritos sejam um dia publicados; escreve simplesmente para comunicar suas experiências e partilhar com seus interlocutores seus sentimentos e estados interiores.
Com este propósito, em setembro de 1915, começa a escrever seu Diário quando está cursando seus estudos como interna no colégio, e o termina no Carmelo. Descreve toda a trajetória de sua vida, embora com muitas interrupções. São páginas incandescentes, de una extraordinária frescura, nas quais verte toda sua vida e toda sua experiência.
Deixou-nos também um precioso legado de 165 Cartas, distribuídas desta maneira: 84 à sua família; 37 às suas amizades; 23 aos seus diretores espirituais; 21 à Priora de Los Andes. São cartas escritas com muita ternura e transparência, que transmitem paz, alegria, felicidade, consolo e esperança, mas sobretudo amor; um amor para com todos, que encontra sua fonte em Deus e na oração contemplativa do Carmelo.
São a expressão de seus sentimentos mais profundos de amor, de afeto, de proximidade; um reflexo de sua sensibilidade e de sua maturidade humana e espiritual. Nelas vai desfiando suas próprias experiências com uma simplicidade e transparência assombrosas.
Merecem um destaque especial as cartas que escreve ao seu pai pedindo sua autorização para ingressar no Carmelo; igualmente as que escreve ao seu irmão Lucho explicando-lhe o sentido de sua vocação; e as que escreve à sua irmã Rebeca, sua confidente mais íntima, a quem primeiro havia revelado o segredo de sua vocação.
São cartas muito semelhantes às que escreve Teresa de Lisieux às suas irmãs comunicando-lhes o segredo de seu caminho de infância espiritual; e semelhantes às que escreve Elisabete da Trindade à sua irmã Margarida compartilhando com ela sua missão de louvor de glória. Do mesmo modo Teresa de los Andes quer compartilhar com sua família e suas amizades sua experiência de amor.


Uma luz no alto do monte: Irradiação eclesial de sua mensagem
A espiritualidade de Teresa de los Andes alcança seu cume mais alto no reconhecimento eclesial de sua santidade, ao ser beatificada por São João Paulo II na sua visita a Santiago do Chile (3 de abril de 1987) e canonizada pelo mesmo Papa na praça de São Pedro (21 de março de 1993).
Em sua homilia de beatificação, propõe-na como fonte de alegria infinita e como modelo de vida evangélica para os jovens. No mesmo ano de sua beatificação, os restos da Beata foram transladados ao novo Mosteiro de Auco (a 11 quilômetros de Los Andes) e depositados depois na cripta do Santuário que se inaugurou no ano seguinte. Aqui peregrinam massivamente todos os anos jovens e devotos de todos os cantos do Chile e de outros países da América do Sul.
O Santuário de Teresa de los Andes se converteu em um foco de irradiação da espiritualidade desta jovem carmelita chilena, que alcança a toda a Igreja e ultrapassa as fronteiras da grande Cordilheira andina, como um raio de luz que ilumina nossa sociedade moderna secularizada, mas em busca de um novo sentido da vida.
Como afirmou João Paulo II no dia de sua canonização na Basílica de São Pedro:
“Deus fez brilhar nela de modo admirável a luz do seu Filho Jesus Cristo, para que sirva de farol e guia a um mundo que parece cegar-se com o resplendor do divino. A uma sociedade secularizada, que vive de costas voltadas a Deus, esta jovem carmelita chilena, que com viva alegria apresento como modelo da perene juventude do Evangelho, oferece o límpido testemunho de uma existência que proclama aos homens e às mulheres de hoje que no amar, adorar e servir a Deus estão a grandeza e a alegria, a liberdade e a realização plena da criatura humana. A vida da Bem-aventurada Teresa brada silenciosamente, desde o claustro: “Só Deus basta!””
À luz destas reflexões, que quis apresentar à Ordem evocando a figura de Teresa de los Andes, gostaria que nos sentíssemos convidados por esta sempre jovem carmelita chilena a seguir seu caminho de santidade. Comemorá-la deve ser também um estímulo para aprofundar em seus escritos e difundir sua mensagem, de grande atualidade para o mundo de hoje.
Termino destacando que esta comemoração vem ao encontro do caminho de reflexão carismática que estamos fazendo neste sexênio. Sem dúvida será possível encontrar em Teresa de los Andes inspirações que enriquecerão sem dúvida nossa reflexão e nos ajudarão a revitalizar nosso carisma.

Frei Savério Cannistrà, OCD, Prepósito Geral – OCD.

Tradução: Volnei Grebogi – OCDS.